O grupo, sediado no Sertão da Paraíba, utilizava tecnologia de ponta para garantir aprovações fraudulentas. Entre os métodos, estavam o uso de pontos eletrônicos implantados cirurgicamente e o acesso antecipado aos gabaritos das provas.
O que era a “Máfia dos Concursos”
Segundo as investigações, a organização oferecia aprovações em concursos públicos como se fossem produtos à venda. Para alcançar esse objetivo, os integrantes aplicavam recursos tecnológicos avançados e estratégias de corrupção que asseguravam a aprovação dos candidatos contratantes.
Os valores cobrados chegavam a R$ 500 mil por vaga, conforme apontou a PF. O grupo burlava os sistemas de segurança das bancas organizadoras com técnicas sofisticadas. Além disso, os próprios líderes faziam provas e alcançavam altos resultados para demonstrar a eficácia das fraudes.
Estrutura familiar e funções na organização
O núcleo da quadrilha era formado por membros da família Limeira. À frente do esquema estava Wanderlan Limeira de Sousa, ex-policial militar expulso da corporação em 2021. Ele negociava com candidatos, coordenava a logística e distribuía os gabaritos.
Os irmãos Valmir Limeira de Sousa e Antônio Limeira das Neves, a cunhada Geórgia de Oliveira Neves e a sobrinha Larissa de Oliveira Neves também integravam o grupo, cada um com uma função específica.
Wanderson Gabriel Limeira de Sousa, filho de Wanderlan, era o responsável pela execução técnica das fraudes. Já Valmir foi aprovado no Concurso Nacional Unificado (CNU) com um gabarito idêntico ao do irmão, o que levantou suspeitas imediatas.
Além disso, Antônio teria recebido um empréstimo de R$ 400 mil de Thyago José de Andrade, conhecido como “Negão”, para financiar a aprovação da filha Larissa. A jovem foi aprovada no CNU e usada como “vitrine” do esquema para atrair novos interessados.
Geórgia, por sua vez, movimentava valores suspeitos. Um relatório do Coaf revelou que ela depositou R$ 419,6 mil em espécie, embora não possuísse vínculo empregatício desde 1998.
Métodos de fraude: tecnologia, disfarce e coordenação
As fraudes utilizavam métodos tecnológicos avançados. O grupo implantava pontos eletrônicos nos ouvidos dos candidatos, com o apoio de profissionais da saúde, para possibilitar comunicação em tempo real durante as provas. Assim, os fiscais não percebiam a trapaça.
Além disso, os envolvidos usavam mensagens codificadas, transmissão de gabaritos e até dublês treinados para fazer as provas no lugar dos candidatos. Essa combinação de estratégias resultava em notas idênticas, inclusive nos erros, mesmo em provas diferentes.
Cobrança e lavagem de dinheiro
O valor cobrado variava conforme o concurso e o cargo, podendo chegar a R$ 500 mil. O grupo aceitava dinheiro vivo, ouro, veículos e até procedimentos odontológicos como forma de pagamento.
Para lavar o dinheiro, os criminosos simulavam compra e venda de imóveis, usavam “laranjas”, faziam depósitos em espécie e negociavam veículos. Em um dos casos, parte do valor de uma vaga na Caixa Econômica Federal foi paga com a compra de uma motocicleta em nome de um terceiro.
A clínica odontológica de Ariosvaldo Lucena, outro investigado, também funcionava como fachada para as movimentações ilícitas.
Envolvimento de servidores e intermediários
Embora a PF ainda não tenha identificado participação direta de bancas organizadoras, as investigações apontam o envolvimento de servidores públicos, profissionais da saúde e intermediários locais. Esses agentes recrutavam candidatos, movimentavam recursos e garantiam a instalação dos dispositivos eletrônicos.
Segundo os investigadores, a colaboração de profissionais da saúde foi essencial para manter o sigilo e a segurança das cirurgias.
Concursos afetados e candidatos beneficiados
A “máfia” atuava em dezenas de concursos entre 2015 e 2025. Estão sob investigação certames da Polícia Federal, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Polícias Civil e Militar e o Concurso Nacional Unificado (CNU).
No CNU de 2024, ao menos dez pessoas foram diretamente beneficiadas, seja com aprovações irregulares ou com o recebimento de propina para facilitar as fraudes.
Provas reunidas pela Polícia Federal
A PF reuniu provas contundentes sobre a atuação do grupo. Uma das principais evidências veio da análise dos gabaritos do CNU de 2024. Quatro candidatos — Wanderlan, Valmir, Larissa e Ariosvaldo — apresentaram respostas idênticas, inclusive nos erros, mesmo com provas diferentes.
De acordo com peritos, a probabilidade de coincidência seria equivalente a ganhar 19 vezes seguidas na Mega-Sena, o que elimina qualquer hipótese de acaso.
Os investigadores também obtiveram áudios comprometedores, mensagens criptografadas, comprovantes de pagamento e movimentações financeiras incompatíveis com as rendas declaradas. Além disso, a PF encontrou indícios de fraudes em concursos anteriores, como o da Caixa Econômica Federal.
Operação Última Fase e medidas judiciais
A Operação Última Fase, deflagrada pela Polícia Federal em 2 de outubro, resultou em três prisões preventivas — duas em Recife (PE) e uma em Patos (PB). Os agentes também cumpriram mandados de busca e apreensão em vários endereços ligados aos investigados.
O juiz Manuel Maia de Vasconcelos Neto, responsável pelo caso, determinou o impedimento da posse dos aprovados por meio de fraude e o afastamento de servidores públicos suspeitos.
Segundo ele, o grupo contratava especialistas em diversas áreas para realizar as provas no lugar dos candidatos. O custo médio por vaga, conforme a PF, era de aproximadamente R$ 300 mil.
O que dizem os investigados
As defesas dos suspeitos negam envolvimento no esquema.
A defesa de Ariosvaldo Lucena argumentou que as acusações se baseiam apenas em indícios e prometeu comprovar sua inocência.
Já os advogados de Antônio Limeira, Geórgia Neves e Larissa Neves afirmaram que os três colaboram com as investigações e que não há denúncia formal contra eles.
Thyago José de Andrade, o “Negão”, declarou que provará sua inocência “no momento oportuno”.
A defesa de Laís Giselly destacou que ela sempre se dedicou aos estudos e não pode ser julgada publicamente antes do fim do processo.
Wanderlan Limeira ainda aguarda acesso aos autos para se manifestar. Já a defesa de Valmir Limeira afirma que não há provas concretas contra ele, apenas presunções baseadas em parentesco e coincidência de gabaritos.
Por fim, os advogados de Wanderson Gabriel criticaram o que chamaram de “linchamento público” e pediram respeito à presunção de inocência e ao devido processo legal.
*Com G1









